05 agosto 2006

Big Nose Strikes Again

Seu nariz era um pouco maior do que o normal, o que ajudava a tornar sua aparência ainda mais peculiar. Lembro que passei um bom tempo tentando concluir se ele era feio ou bonito e não cheguei a lugar nenhum. De acordo com os padrões estéticos correntes não se poderia dizer que ele era exatamente bonito, ao mesmo tempo eu não conseguia achá-lo feio, mas também não conseguia ter certeza. Dava prá ver pelo seu rosto que ele era todo magrinho, aparentemente tímido e desajeitado, meio mauricinho, meio grunge, o cabelo britpop, lisinho caído um pouco acima do ombro, e tinha o nariz que, junto com o seu olhos que levantavam e abaixavam toda hora, dava-lhe um ar de alguém ciente de todas aquelas observações. Nova dúvida: seria ele um desses rapazes bonzinhos por saber-se não tão bonito assim ou seria o contrário e permitiria ele essa imagem inofensiva de menino bonzinho e feinho justamente por saber que não era nenhuma das duas coisas? Ele estava um pouco inquieto, podia não ser tão inofensivo assim. Enquanto eu conversava com um amigo em comum ele fingia que participava da nossa conversa mas de vez em quando me atirava uns olhares tão diretos que eu ficava desconcertada. Percebendo isso ele parava e olhava pro nada como se fosse um autista e a minha presença fosse o acontecimento mais irrelevante do mundo. Pensaria ele a mesma coisa? Um bom moço, sem dúvida, talvez menos por opção do que por falta dela. Tinha uma leve tensão em seus atos e na observação das coisas ao seu redor com aparente indiferença, o que me fez pensar na ocultação de um significativo potencial para a perversão. Convencionalmente ele não era bonito, mas eu não conseguia achá-lo feio, na verdade se eu o observava a tanto tempo era porque gostava de alguma coisa, mas do quê? Eu nunca tive um gosto estético convencional, mas não negava suas conveniências. Ao mesmo tempo em que analisava esse desconhecido eu flertava com mais dois rapazes que se movimentavam pelo bar, esses sim de uma beleza bem convencional, e hora ou outra me colocavam em dúvida se eu deveria abandonar aquela mesa e seus ocupantes e tentar algo que impressionaria minhas amigas e elevaria minha auto-estima imediatamente, motivo mais que justo frente aos meus recentes insucessos sentimentais. Entretanto, por mais que eu desejasse, não conseguia acreditar que algum daqueles belos jovens pudessem me entreter mais que algumas horas e novamente a incerteza se no momento seria o suficiente ou se desejar mais daquela noite ou do sexo oposto seria um ingênuo auto-engano. O rapaz sentado à minha mesa continuava ali, até aquele instante ignorado pela minoria feminina do bar. Discreto, eu mal tinha ouvido sua voz e ainda mantinha a impressão de que se tratava de uma pessoa tímida, e nunca substimei as habilidades amorosas de alguém tão displicente com o marketing pessoal. Podia apostar que se o levasse até um local mais reservado e fosse bem safada sua timidez desapareceria. Conseguia imaginar milhares de formas de desvirtuar aquele rostinho de bom moço incorrompido e todas pareciam me interessar. Morri de medo de que ele abrisse a boca e se revelasse bobo, chato ou burro, já que o meu espírito crítico preservava pouquíssimas pessoas, e relegava todas as outras a um relacionamento superficial, condescendente ou vertical, obrigando-me a uma longa e conformada solidão espiritual. Quando o som da sua boca ressoou nos meu olvidos, no entanto, revelou uma voz grave e gostosa, capaz de discorrer sobre banalidades de forma inteligente e agradável como não me acostumara em ocasiões como aquela. Com a banda de rock tocando tão perto, ele tinha que praticamente grudar seus lábios à minha orelha e, cautelosamente, equilibrar-se entre o grito e o sussuro para que pudesse ser ouvido sem me deixar surda, cuidado que eu igualmente tomava e com muito mais freqüência, já que mais prolixa e interessada no assunto do que ele. Enquanto falava, com seu timbre de voz destoante da carinha de menino, imaginei-o falando obcenidades, bem baixinho, ali em público, ou aos berros, só prá mim, em particular. Mesmo não podendo acompanhar minha imaginação, a todo momento eu era atraída à realidade por alguma coisa que ele falava e quando começou a falar qualquer coisa sobre os Smiths eu pensei que até se ele fosse gay seria de longe o homem mais interresante daquele bar. Descobri que havíamos nos formado na mesma época, estudado a mesma coisa e tínhamos a mesma profissão, com uma visão sobre as coisas ao mesmo tempo parecida e diferente e que, com certeza, ele achava que conseguiria o que quisesse de mim. Presunção típica de homens mais velhos (condição que eu lhe conferia mesmo com os poucos anos de diferença já que eu não costumava me envolver sequer com alguém com a mesma idade que a minha) mas que, dessa vez, me soava engraçada: ele não tinha a menor noção de onde estava se metendo e que provavelmente obteria de mim o oposto do que desejava e aí, já seria tarde demais prá mudar de idéia. Quando ele me beijou naquele momento, pensei que poderia ficar com alguém assim o resto da minha vida, e tenho estado certa disso.