02 julho 2008

Enfim o testemunho...

Eu acredito que a morte não termina com a existência de quem vai, que deve continuar existindo em outro lugar, termina sim com uma forma de existência dessa pessoa em relação aos que ficam: a do tempo presente. Sobre quem se vai, podemos falar do passado: o que ela foi, era, ou de uma remota esperança de futuro, o que poderia vir a ser um dia; quem se foi, porém, não é mais, ou ainda...Uso uma metáfora tão forte como a morte pq não posso mais falar no presente, direi de um pretérito ou de um futuro mais que perfeito, o que não consegui dizer quando existia o presente em relação à ele.
O Régis foi uma das melhores homens que eu conheci na vida, não, foi a melhor, e nem sei se este adjetivo é digno dele. Quem considera, como eu, que este mundo é o verdadeiro purgatório, sabe que não é aqui que ele deveria estar.
Anjos descem à Terra pq, estando tão próximos do infinito, da perfeição, compadecem-se das criaturas sofredoras que habitam este planeta, e abdicam momentaneamente de sua harmonia e felicidade por nós sequer sonhada, para repartir conosco sua bondade e amor, suavizando nosso merecido degredo neste mundo de sofrimento e impermanência.
Encontrar um anjo é uma das maiores alegrias e tristezas pelo qual pode passar um espírito imperfeito: quem se conformou à desesperança, à desconfiança, ao egoísmo e à maldade inerente às pessoas deste mundo, ao conhecer o respeito incondicional, o carinho cuidadoso, as idéias iluminadas e a esperança de perfeição que só um ser de luz pode trazer, não pode continuar sem enorme sofrimento a própria existência se desposada dessa presença. Como aceitar as promessas de um futuro, de um mundo, de pessoas, tão imperfeitas quanto a si próprio?
Perdi o meu anjo, não pq tenha ele retornado de onde veio, mas pq findou o prazo da graça excelsa a mim concedida, de poder ter tão entranhado na minha existência esse ser de luz que, para minha honra, quase dois anos chegou a me ter guardada em seu coração. Essa época de sonhos, de mágica, prá mim acabou. Anjos devem espalhar seu amor pelo maior número de almas antes de retornarem ao seu lugar, não podem olvidar seu destino e destinarem sua afeição por muito tempo a apenas uma pessoa, por isso seu amor é tão grande e tão breve...
A mim, criatura pequena e imperfeita, meu anjo continuará existindo entre as mais lindas lembranças do passado e nos mais pretensiosos e belos desejos para o futuro. No presente, ele estará apenas em minhas preces mais ardentes e puras, em que rogarei a Deus que, se impossível a felicidade de ter de novo o que perdi, que me conceda, por misericórdia, apenas mais uma graça: a de algum dia poder abrigar e ser abrigada no coração não mais um anjo, mas de um outro ser, imperfeito como eu, conformado com sua existência neste mundo de dor e justamente por isso, tão intenso e tão constante no seu amor como eu fui.